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CERTIFICAR VALE À PENA?

por Eduardo Parise

            Não é uma estatística exata, mas noto que a maioria dos meus alunos, arriscaria dizer que mais de 90% deles, não presta nenhum exame de certificação oficial após os treinamentos. No primeiro dia de aula de cada turma indago qual o objetivo de cada um, e se neste objetivo estaria a obtenção de um título oficial. A resposta é positiva para quase todos os alunos. Percebo então que existe um grande abismo entre a intenção de se certificar e a realização dos exames em si.

Atuo como instrutor oficial Microsoft (MCT) desde 1999, e desde então vi uma pequena minoria de ex-alunos tornar-se MCSE, um deles inclusive tornou-se MVP e atualmente atua fora do país em grandes projetos de redes em parceria com a Microsoft.

O objetivo do programa de certificação oficial de cada empresa é criar um canal para a formação de especialistas em seus produtos. Estes especialistas suportarão os produtos nos ambientes corporativos. Para o profissional, a certificação é uma forma de comprovar o conhecimento e experiência em determinada tecnologia. O mercado então passa a acreditar que o profissional certificado foi treinado e testado exaustivamente e está capacitado a resolver todas as questões pertinentes a sua área de atuação.

As certificações tiveram sua época de glória, no final da década de 90, onde as empresas passaram a fazer investimentos cada vez mais pesados em infra-estrutura e tecnologia e passaram a depender de um volume maior de profissionais especializados. Lembro que nesta época ter um MCSE ou CNE (Novell) era praticamente uma garantia de emprego. Os profissionais certificados eram bem remunerados e o fato de terem ou não um nível superior completo não eram empecilho para a obtenção de bons empregos.

Bem, de lá para cá este cenário sofreu algumas mudanças. Os treinamentos oficiais que antes custavam ao aluno R$250,00 por dia/aula (totalizando 1250,00 para um treinamento de 40 horas) tiveram uma redução drástica de valor, em virtude da acirrada concorrência e alta demanda.

Os famosos e desleais braindumps (simuladores de provas com questões idênticas as do exame oficial) tornaram-se muito populares e passaram a ser utilizados como fonte única de estudo por muitos “profissionais” para obtenção da certificação. Este último fator acabou por trazer ao mercado uma leva de “profissionais” não qualificados e inexperientes, que muitas vezes acabam submetendo-se a receber salários menores do que o justo. Antigamente chamávamos estes profissionais de MCSE Paper. Poluindo literalmente o mercado de trabalho e dificultando a vida dos verdadeiros especialistas que investiram muito tempo de suas vidas e dinheiro para se qualificar.

Este “fenômeno” fez com que a certificação perdesse parte de sua credibilidade perante o mercado, obrigando as empresas a realizarem seu próprio exame para atestar o conhecimento e experiência alegados pelo aspirante a vaga.

Não só, o mercado ficou mais exigente quanto aos quesitos que os aspirantes devem ter: nível superior completo (preferível em instituições de renome), conhecimento de diversas tecnologias distintas, inglês fluente, vasta experiência entre outros. Isso faz com que tenhamos de investir mais tempo e dinheiro em nossa qualificação. A certificação deixou de ser aquela “garantia de emprego” e passou a ser um quesito diferencial, um acessório que talvez faça com que você tenha destaque perante seus concorrentes.

Mas nem sempre o mercado é tão exigente com os aspirantes a uma vaga, existem muitas empresas, especialmente as consultorias em TI, que não fazem tanta distinção entre profissionais graduados ou não. Nessas empresas, as chances de um profissional certificado e com experiência anterior são muito superiores as daquele profissional sem certificação e que ainda está cursando a faculdade. Numa coisa sejamos realistas, é imprescindível que se tenha uma graduação.

Uma das perguntas que mais recebo dos alunos é: - Devo trancar a faculdade e concluir a certificação? Esta é uma pergunta difícil de responder, por ser muito pessoal. Costumo responder de uma forma que o aluno possa ponderar sobre o que é melhor para si. Se você estiver satisfeito com a sua atual colocação no mercado e principalmente com seu salário, termine a faculdade e depois se certifique. Agora, caso você não esteja satisfeito e pretenda dar um rumo mais rápido a sua carreira e um upgrade no seu salário, então a certificação pode ser o caminho, e neste caso talvez valha a pena interromper temporariamente a faculdade até concluir a certificação.

Se você optou por esta jornada, saiba que ela não será menos dura ou penosa do que a própria faculdade. No caso de uma certificação MCSE (Microsoft), você deve ser aprovado em 7 exames, alguns em português, mas a maioria em inglês. Para cada exame existe uma vasta área de conhecimento que deve ser dominada pelo candidato. Aqueles que não tiverem uma experiência com os produtos poderão sucumbir facilmente aos exames, a menos que se dediquem muito em sua preparação. Mesmo para os profissionais já experientes, os exames podem ser muito desafiadores, pois abrangem áreas que nem sempre estamos habituados a lidar em nosso dia-a-dia. O caminho para o êxito é um só: muito estudo e laboratório.

Quando a questão é salário, é muito relativo, pois a certificação não é determinante, depende muito da sua formação, conhecimento em idiomas, experiência e projetos anteriores. Conheço MCSE’s que ganham R$2000,00 e também os que ganham R$8000,00. É importante salientar que para tudo existe um limite, geralmente regulado pelo mercado, é a tal lei da oferta e da procura, acrescida de um adicional que é a sua capacidade de resolver problemas, quanto mais problemas você resolve, mais valor você terá agregado.

Apesar de o mercado estar muito prejudicado (pelas empresas que demandam mão-de-obra barata) e concorrido, sempre existem vagas para bons profissionais certificados. Ressalto que a certificação não garantirá um emprego e tampouco um ótimo salário, mas melhora muito suas chances. No último ano recebi mais de 40 ofertas de emprego, algumas muito boas, outras nem tanto. Como dizia um velho desconhecido, o importante não é ganhar, mas estar no jogo, pois uma hora chegará a sua vez.

Ah, e quanto aos MCSE Paper, não se preocupe, o mercado se encarregará deles!